Chego agora à conclusão de que há guerras que nunca chegam a ser vencidas... por não existirem duas frentes no campo de batalha. Sei do que falo. Eu mesmo sofri na pele a frieza de uma espada empunhada por alguém duas ou três vezes mais velho e maior que eu!
As espadas deixaram de se ouvir! Uff, lá escapei a mais uma!
As mãos ficaram frouxas, os braços desgastados, as pernas cansadas e o sentimento de raiva esmorecido. Cai por terra a espada! Cabeças que ficaram no sitio, crianças que sobreviveram junto das mães que assim escaparam ao sacrifício (que não foram violadas, entenda-se), animais e terrenos que ficam por conhecer e tantas vidas que ainda se vão mantendo presas aos corpos dos que partiram de armadura cravada na pele (umas de pau outras de ferro) e rostos cobertos pela sombra do receio, do medo de não voltar a ver os que choraram a sua ida.
Lama ensanguentada cobre agora o lugar onde se recolhem as botas dos que já não as precisam, as espadas e machados dos que perderam as mãos que os seguravam e ainda as roupas dos que verão ser queimados ainda hoje, mal se ponha o sol. É já sabido que o fedor nauseabundo da morte não tarda a assombrar os campos.
O miúdo da tenda dos ferreiros (e não me critiquem por lhe chamar assim mas o seu nome levou-o a mãe que enterraram quando o pôs no mundo), bem que tenta procurar pelo pai mas, coitado, não o consegue reconhecer em nenhum dos rostos que menos se desfigurou. Mas, perceba-se, identidade é coisa que por aqui já à muito que se perdeu. Somos todos espadas, somos todos escudos, vassouras, baldes, animais prontos a ser usados e mortos sem merecer sequer um olhar nos olhos que justifique o porquê de tal frieza!
Pudesse eu juntar todo o ferro que temos connosco, o que nos vai sua majestade cedendo em troca de umas boas dezenas de vidas perdidas em seu gentil e honrado nome, e faria deste o campo mais resistente que alguma vez cavaleiros pisaram. Sim, faria deste um campo em que crianças pudessem sê-lo, em que não tivessem que ser escondidas por ofender sua majestade a rainha ao descobrir que o marido satisfez gentil capricho na cama das cozinheiras e onde não tivesse que continuar a ouvir, constantemente, o choro de uma inocente vida recém-chegada a ser calado! Pequenas vidas que rápido conhecem a morte, mães cujo ventre recebe o fruto real e acaba desfeito, homens que nem chegam a poder criar, muitas vezes sem saberem, o filho daquele por quem morrem...
Vidas atrás de vidas! Vidas que servem de peões neste jogo do poder, sem valor algum aos olhos de quem se senta num trono que esquece ter sido construído pelos que agora, depois de nele sentado, manda matar sem que a sua frágil e pálida pele se engelhe como sinal de preocupação ou remorso.
Vidas em tempo de guerra? Tomara eu não ter que temer pela minha a cada cantar do galo!
Sem comentários:
Enviar um comentário