terça-feira, 23 de outubro de 2012

Real engano!


Ela dizia-lhe que não! Ora, sejamos explícitos: dizia? Não, acenava de forma subtil o lencinho que roubara ao senhor doutor por capricho, não fosse este falhar no pagamento pela ajudinha prestada. Ele insistia, insistia e até dava um paço maior que a perna a ver se a da gentil dama da sua se acercava. Um piscar de olho, um franzir de sobrancelha, e o pobre do rapaz que se não apercebia que estes gestos lhe passavam ao lado, eram simplesmente insignificantes aos maquilhados olhos da senhora. Decide então ser mais, digamos assim, atrevido: avança com um breve toque na cocha e inicia assim uma diferente abordagem no cortejo. 
Ela, habituada a ser o pavão mais admirado na sala, sorri e põe à prova (oxalá para o rapaz que num sentido literal fosse) os apetecíveis e carnudos lábios que o já cansado batom vermelho esconde. Entusiasmado por tal gesto, que para ela não passava de um habitué, lá responde na mesma moeda e liberta escassa risada. 

Troca de sinais, um passo aqui outro acolá, dá-se o cortejo por acabado e está o homem tramado. Eis que se vê cair em teia tal que não há braço que lhe valha ou perna que o socorra. Agarra-lhe ela pela mão e leva-o rumo à sala refundida num recanto que este desconhecia até então. Digo-vos eu: era o quarto da nobre senhora.
Assim ostentava tal concepção arquitectónica: um ambiente com pouca luz (só as velas quase derretidas acesas), cortinados vermelho veludo, cama semidesfeita (usada fazia horas) com os lençóis de seda turquesa à vista. Estava pronto e mais que pensado o chamariz que o iria atrair aos aposentos que, vá-se lá saber como ou porquê, aparentavam já contar com tal visita.

Disfarçando o à vontade com que se sentia já confortável, lá desaperta o botão cimeiro do corpete, que "estava a apertar", dizia. Compõe o cabelo, ajeita a saia que outrora lhe cobria os tornozelos e cruza as pernas na cadeira de napa já gasta. Ele ainda meio nervoso, desconhecedor deste tipo de situações, apenas compõe a lapela do casaco que esta teimava em desajeitar com amassos sucessivos. Juntam-se então no fundo da cama, a pretexto de retirar os sapatos que causavam incómodo e do casaco que estava a causar calor (ainda ele se questionava se esse seria realmente o "factor calor" presente).


Despachada, não tardou a fazer do inocente jovem um objecto que atirou à cama e que fez por desinibir. Provocando qualquer tipo de reacção, teria senhora seu trabalho ganho.
O rapaz, inexperiente, deixou-se ir, guiado pelas mãos e envolvente corpo que à já muito conheciam os caminhos a percorrer. Estava assim consumado o acto: um só movimento e o menino passava a ser um homem, um homem que queria agora dominar a situação já que, afinal de contas (mesmo sem o saber), lhe iria sair cara a ousadia. Um respirar mais acelerado, alguma estranheza ou talvez repúdio e uma envolvência cada vez mais acrescida por parte do jovem. Ela habituada e experiente, ele numa embrulhada mas contente. 

Envolto no cheiro que fora por muitos deixado dos lençóis, acorda o rapaz. Ele satisfeito, para ela tanto faz!
Prepara as vestes que a mãezinha lhe dera para festa da noite, calça as botifarras que lhe oferecera seu avô antes de morrer (teria, possivelmente umas que melhor lhe servissem na ora da partida) e desperta do grosseiro ressonar a senhora dona. Acorda ela mal disposta porque não havia ganho a aposta.
Verdade, eis que El Rei, Dom, Senhor, Excelência e todas as idiossincrasias a este cargo associadas, tinha contratado a rameira que o havia desflorado, para também cumprir tal serviço com seu filho amado. Ora, mas porquê a aposta? Então não é que sua majestade, querendo fazer do filho um macho (assim se entendia na altura), teria feito a aposta que este se acanharia e não iria fazer valer o sangue real que nas veias trazia? Já a contratada dama atreveu apostar ainda mais, que este fugiria a sete pés para as saias de sua mãe, tal como fazia o Rei. 

Apostas à parte, como ficou então o rapaz? A verdade é que o este se apercebera da trama, não fossem os pajens fazer uso do conhecimento da vida da Coroa, e ia já preparado para a ocasião. Enganou o pai e a rameira e ainda deixou a nota na cabeceira. Fez do pai tolo e enganado, da mulher um trapo usado e ficou ele bem calado!
Já dizia a jovem aia, em jeito de lengalenga: "pequeno senhor, um dia que vos quiserdes fazer rei, não olheis aos caminhos de vosso pai, que onde este caminha sempre houve outra companhia. Fazei valer a força que tendes e mostrai como ser homem a sua senhoria!"  

domingo, 8 de julho de 2012

Vidas de lama... (continuação)

O galo canta, canta cada vez mais cedo e teima em acordar-me de um sono que à muito não é real. Finjo dormir, fecho os olhos e oiço constantemente,  na minha cabeça, os gritos das mulheres que tentavam escapar das nojentas mãos dos homens que lhes entravam tenda a dentro, os gritos dos filhos a quem tapavam os olhos para que não vissem aquilo que muitas vezes estava na origem do seu nascimento. Gritavam tão alto! Grunhiam até como se um pedaço de vida perdessem, como se lhes levassem parte da alma que as assombrava e que as fazia viver de cabeça caída, envergonhadas por terem que se acostumar a estar prontas para receber os homens que os seus tinham ido defrontar.

Então tudo parava. Um estranho silêncio que um ou outro choro irrompiam. Era nestas alturas que me amedrontava ainda mais e que desejava respirar por mais uns minutos que fosse, que ao menos pudesse voltar a ver os que ainda nessa manhã me tinham dado o pouco que tinham no tacho, para enganar a fome que à tanto perdura.
O cheiro a medo e a raiva simultânea pairava em volta das pobres mulheres. Algumas mães, outras viúvas, outras apenas mulheres... todas elas sofreram de alguma forma.
O fedor que vinha do campo fazia chegar-se a grande velocidade e anunciava já a morte dos nossos. Sempre são os nossos que morrem. 

Ou morrem de espada e machado cravados no corpo, ou morrem porque perdem realmente a vida que, enganados, ainda pensavam possuir. Oiçam-me: as nossas vidas, as que julgamos nossas, não pertencem se não àqueles que, por de trás da muralha, se vão alimentando de vidas perdidas, aqueles que arrotam vitórias que nós lhes vamos servindo em travessa de cobre, nós os reles vagabundos que a lama ensanguentada disfarça na sola dos pés dos senhores.

Cheirassem seus pontiagudos e delicados narizes as casas onde vou descansado os ossos (não tenho uma fixa desde que me levaram os que me puseram no mundo) e veriam que vidas, essas que tanto menosprezam, serão mais do que viver sentado numa poltrona, mais do que viver num constante dilema sobre que vestido usar para que seu marido consiga melhor fingir o amor que lhe convém sentir, mais do que pequenas idas e voltas entre pajens e criadas que fazem com que o Rei se perca ou desvie, sabe-se lá porquê (e sabe de certo), a meio do caminho. Vidas? Fossem eles feitos do mesmo que os nossos moribundos corpos e não de porcelana e talvez, então, conseguissem enxergar melhor o que uma vida é.

É esta minha raiva, esta minha dificuldade de perceber estes caprichosos detentores do poder, que me faz manter aqui, que me faz esconder que um dia fui um deles. Ah como me arrependo de me lembrar que em tempos, num outro reino, também eu, mesmo em criança, pegava já na ponta da seta que o meu pai, mesmo comigo ao colo, atirava do alto da torre.

Vidas de lama...

Chego agora à conclusão de que há guerras que nunca chegam a ser vencidas... por não existirem duas frentes no campo de batalha. Sei do que falo. Eu mesmo sofri na pele a frieza de uma espada empunhada por alguém duas ou três vezes mais velho e maior que eu!
As espadas deixaram de se ouvir! Uff, lá escapei a mais uma!

As mãos ficaram frouxas, os braços desgastados, as pernas cansadas e o sentimento de raiva esmorecido. Cai por terra a espada! Cabeças que ficaram no sitio, crianças que sobreviveram junto das mães que assim escaparam ao sacrifício (que não foram violadas, entenda-se), animais e terrenos que ficam por conhecer e tantas vidas que ainda se vão mantendo presas aos corpos dos que partiram de armadura cravada na pele  (umas de pau outras de ferro) e rostos cobertos pela sombra do receio, do medo de não voltar a ver os que choraram a sua ida.

Lama ensanguentada cobre agora o lugar onde se recolhem as botas dos que já não as precisam, as espadas e machados dos que perderam as mãos que os seguravam e ainda as roupas dos que verão ser queimados ainda hoje, mal se ponha o sol. É já sabido que o fedor nauseabundo da morte não tarda a assombrar os campos.

O miúdo da tenda dos ferreiros (e não me critiquem por lhe chamar assim mas o seu nome levou-o a mãe que enterraram quando o pôs no mundo), bem que tenta procurar pelo pai mas, coitado, não o consegue reconhecer em nenhum dos rostos que menos se desfigurou. Mas, perceba-se, identidade é coisa que por aqui já à muito que se perdeu. Somos todos espadas, somos todos escudos, vassouras, baldes, animais prontos a ser usados e mortos sem merecer sequer um olhar nos olhos que justifique o porquê de tal frieza!

Pudesse eu juntar todo o ferro que temos connosco, o que nos vai sua majestade cedendo em troca de umas boas dezenas de vidas perdidas em seu gentil e honrado nome, e faria deste o campo mais resistente que alguma vez cavaleiros pisaram. Sim, faria deste um campo em que crianças pudessem sê-lo, em que não tivessem que ser escondidas por ofender sua majestade a rainha ao descobrir que o marido satisfez gentil capricho na cama das cozinheiras e onde não tivesse que continuar a ouvir, constantemente, o choro de uma inocente vida recém-chegada a ser calado! Pequenas vidas que rápido conhecem a morte, mães cujo ventre recebe o fruto real e acaba desfeito, homens que nem chegam a poder criar, muitas vezes sem saberem, o filho daquele por quem morrem... 

Vidas atrás de vidas! Vidas que servem de peões neste jogo do poder, sem valor algum aos olhos de quem se senta num trono que esquece ter sido construído pelos que agora, depois de nele sentado, manda matar sem que a sua frágil e pálida pele se engelhe como sinal de preocupação ou remorso.

Vidas em tempo de guerra? Tomara eu não ter que temer pela minha a cada cantar do galo!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Cercos (in)finitos!

Sobes a árvores, arriscas, vais mais rápido que te permitem as pernas já em esforço, entras num jogo sem regras conhecidas, levas em frente um percurso que parece ser cada vez menos teu, constróis fios... mas acabas sempre por cair na teia que outros teceram! Tentas libertar-te de amarras que parecem tão vulneráveis mas que fazem de ti um ser enfraquecido, sem bússola ou mapa por onde traçar rotas em que confiar, ficas perdido.

É precisamente esta batalha constante que faz de ti um lutador, alguém que cai uma, duas, as vezes que for preciso, mas nunca desiste. Já quase sem cordas a que te prender, olhas sempre mais além na expectativa de achar uma pedra, por pouco sólida que seja, para escalares nesta pirâmide do poder cujo sentido não encontras e pelo qual preferias não ter que lutar. 

Não vês o quanto estás a aprender? O quanto estás a fazer por ti mesmo, para que sejas cada vez mais forte e que sejas capaz de construir e polir as tuas próprias rochas, estas mais consolidadas, que te alimentem a vontade e te engrandeçam a coragem? Então anda, ergue-te desse fosso onde te escondes e quebra as muralhas que foste construindo junto daqueles que te queriam ver cada vez mais cercado!

Sim, sim é difícil estar sempre a remar contra a maré! Sim, é difícil ter de sorrir quando na verdade apenas queres verter as lágrimas que alguns pensam ser sinal de fraqueza. Essas são na verdade as lágrimas de alguém que reconhece ter errado e se orgulha de poder dizer "eu tentei"! Tentar, será provavelmente esta a palavra que muitos negam ser a chave para o sucesso mas que é a base para ser mais que um mero espectador. Um espectador que observa de forma passiva a sua vida - que cada vez menos assim o é - e deixa que sejam os outros a construir os mapas onde anota os pontos por que quer passar, aqueles que o levariam ao local onde se encontra aquilo que mais anseia.

Ora, pudesse eu responder a estas questões e resolver estes pequenos enigmas e não deixaria mais que o papel onde vai caindo uma tinta chamada de "experiência" fosse produzido pela mão que tanto insiste em intrometer-se num texto que devo ser eu a escrever e a protagonizar. Quando esse dia chegar, que se afastem todas as mãos que um dia tentaram ser a muralha que me cercava e que agora começo a deitar a baixo! 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sangue real... vontades esquecidas!

Entrais. Entrais repentina - como em todos os vossos gestos - com sublime toque de mulher grotesca. Senhora dos ventos, progenitora das montanhas, filha da tempestade, heis que vos apresentais, tão imponente que nem vosso nome ouso conhecer (se o conhecesse passaria dias a pronunciá-lo, tal como faria um pequenito que fatidicamente repetiu, em tempos, o nome de seu pai quando o viu partir de corpo cravado na armadura que o ferro do rei havia forjado)! 

Assim vos julgo ver: olhos desconfiados, nariz aguçado como a lança que trazeis ao peito, mãos de princesa cravadas de batalhas por outros travadas! Mas julgo, julgo porque temo enxergar com certezas criatura tal que pelo próprio pai foi descartada. Talvez por medo, é certo, talvez o tenha feito precisamente por temer os olhos que, encobertos por choros, se faziam já cortantes. 

Dessem-te vestes de camponesa e assim o serieis! Mas os corrompidos tecidos que vossa avó desviou de um outro reino, mais forte e rico por ventura, não vos libertam das amarras que o sangue do Senhor vos colocou nas veias. Não deste modo, não tirando o ouro ao intocável berço em que haveis nascido.

Ah princesa, como pareceis alta de onde vos vislumbro, tão senhora de si, tão apoiada e sustentada por pilares que as mãos de meu pai construíram antes de o vosso lhe ter colocado a espada e a armadura às costas, que já mal se erguiam. Não que fosse velho, não, apenas porque o trabalho da forja lhe tinha roubado a rigidez para o ferro que o levou a morrer em campos. (E neste momento lembrei como era forte o abraço que me havia dado aquando do tirano chamamento de sua realeza)

Como sois ingénua minha senhora, deixais que vos atirem para uma cama, imunda de tanta vergonha que nela já se acomodou, e que continua a ser palanque de cortejos infundados que apenas vos querem colocar filhos no ventre para que assim não sucumbam ao peso da coroa que tanto anseiam possuir.

Não o façais senhora, não o façais! Jurei por meu pai que haveria de vos salvar destas garras imperiais. Tomai voz, lutai contra os céus e contra os que donos deles se julgam! Em vez de filhos, dai à luz ventos e chamai vossa mãe! Dizei-lhe que traga tempestades e então isolai senhor vosso nas montanhas, tal como ele um dia me isolou nas muralhas deste reino, sem pai a quem me agarrar quando as suas servas me incorriam por pedir por um colo de mãe que não conheci nem pude velar!