Por vezes era bom conseguir fechar os olhos e esquecer que existe um ontem, por breves instantes que fosse!
Por mais que tente há sempre um clarão que me bate de frente no rosto, com tal força que impede que me concentre e que deixe escondidos, na sombra, todos os medos e arrependimentos que insistem em não sair da luz da consciência. Talvez fosse mais fácil abrir os olhos e tentar perceber o porquê da sua insistência, o porquê da sua perseguição, mas por que motivo havia eu de me debruçar sobre as margens de um rio que só traz dor quando passa? Dor, arrependimento, mágoa, o rio passa e eu fico, o rio leva com ele o que no caminho se encontra. Já eu tenho que permanecer, gélido e parado no tempo, com tudo o que o rio deixou junto às margens, aquilo que me entregou, mesmo sem pedir permissão para o fazer.
Ainda hoje me questiono se vale a pena olhar para este rio se nem o fundo lhe conheço, não que seja muito fundo, não, apenas não lhe vejo o fundo porque a sua superfície se cobre de falsos sentimentos e palavras turvas, dúbias, desfiguradas pela boca inconsciente de alguns que nele navegam. Fosse toda esta camada destruída, chegasse a luz ao fundo do rio e pudesse eu vê-lo… e tudo seria diferente. Talvez, assim, não hesitasse tanto em olhar aquele percurso de água que é uma vida marcada por correntes adversas, marcada por pequenas embarcações que embatem constantemente no fundo escondido do rio, marcada por pequenas criaturas que fazem deste rio um caminho mais escuro e difícil de seguir.
Hoje não olho mais para o rio. Amanhã talvez me debruce de novo sobre os muros que o delimitam e onde me resguardo quando o rio ameaça subir o leito de cheia e arrasar com toda a esperança que ainda se agarra nas margens, tal como alguns seres teimam em se agarrar ao fundo do rio, onde a falta de luz (leia-se: a falta de verdade) os impede de subir até à superfície, até às margens para onde trago somente aqueles que não carregam o peso de uma âncora e de alguma artilharia que por vezes parece nem lhes custar a carregar e usar.
Rio, amanhã continuaremos a nossa caminhada. Talvez não seja tarde de mais para me ensinares a navegar nas tuas águas!
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